quarta-feira, 2 de julho de 2008

Uma aventura em Las Piedras

Com uma pasta recheada de dólares, eu e três amigos, lá pelo fim do século passado, decidimos dar uma esticada ao Uruguai, com um duplo objetivo: comprar um bom cavalo para correr os clássicos de Porto Alegre e “sentir” o interesse dos uruguaios por animais brasileiros. O Mercosul ainda engatinhava, mas já existiam normas facilitando a entrada e saída de mercadorias pela fronteira.

Um treinador de lá, que já andara pelo Cristal cuidando dos animais do Haras Ferradura, era o nosso contato. Nas muitas conversas com ele e um filho, conhecido por Loquijo, fomos alertados para uma possibilidade de lucro fácil: já que tínhamos muitos dólares, por que não bancar as corridas de sextas e sábados na vizinha Las Piedras? A vantagem era toda da banca, amparada por um rateio fixo de 3 por 1, diziam pai e filho.

A ambição acabou falando mais alto e lá fomos nós para Las Piedras, a um tiro de canhão de Maroñas. Na sexta, entre mortos e feridos, saímos com um lucro razoável de 1.500 dólares, quantia suficiente para reforçar a impressão de que tínhamos descoberto uma mina de verdinhas. No domingo, uma outra história seria escrita, porém: venceram todos os cavalos muito apostados nas bancas, à exceção de um. Como não tínhamos a vantagem de poder descarregar parte das apostas em outros banqueiros pelo fato de sermos gringos e desconhecidos, ficou claro que a mina vertia água e que os riscos eram bem maiores que os previstos. Feito o balanço final, no entanto, estávamos todos apenas um pouco mais pobres, graças ao único favorito que fracassara.

Aliviados, amanhecemos no domingo já com a idéia fixa de desistir da aventura. Aliviados em termos, porque nem bem o dia raiara e já estávamos às voltas com o proprietário do cavalo que não vencera, exigindo o seu dinheiro de volta. Dizia, indignado, que Loquijo induzira um dos seus cavalariços a dopar negativamente o animal. “Le aplicaron una dormidera a mi caballo”, não cansava de repetir. Foram muitas as ameaças de parte a parte, até que um dos nossos proferiu uma, definitiva, que espantou o uruguaio: iríamos dar queixa dele na polícia por ameaça de morte.

Resumo da ópera: passamos a tarde inteira de domingo em uma quase deserta delegacia, tentando convencer o plantonista de que éramos vítimas de uma armação. Por sorte, queixas semelhantes já haviam sido feitas contra o mesmo cidadão e fomos finalmente dispensados. Fosse o policial um pouco mais atento, entretanto, e teríamos sido todos trancafiados. Lá, como aqui, bancar corridas é ilícito penal. Pelo que soube depois, Loquijo passou pelo menos um mês sem sair de casa, esperando a poeira baixar.

Ainda cabreiros com as ameaças, deixamos Montevidéu em direção a Punta Del Leste e Chuí, sempre olhando para trás e para os lados, temendo uma emboscada. Alívio mesmo só quando cruzamos a fronteira e pegamos a estrada para Porto Alegre.

A idéia de importar e exportar cavalos acabou por se perder nas idas e vindas da vida. Uma pena, porque poderíamos estar ainda ganhando dinheiro com um mercado de mão dupla hoje em franca expansão. Las Piedras? Bem, nunca mais estive lá. Pelo que me consta, voltou a ser apenas um apêndice de Maronãs. Os banqueiros a 3 por 1 certamente se mudaram todos para o prado da capital.

*Por razões óbvias, omiti a identidade dos personagens desta história.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Só faltava falar

Guardo dos meus tempos de treinador a boa lembrança de dois cavalos intrigantes, da mesma estirpe daquele que gostava de sonhos, como conta em seu blog o Marco Aurélio Ribeiro - El Boiero e Jumbo Lark. O primeiro, de propriedade do amigo Sand Nunes (o mesmo do ganhador do último Grande Prêmio Brasil, L’Amico Steve), portador de algumas fraturas nos dois joelhos, gostava de me lembrar disso toda vez que caminhava em direção à raia para se exercitar. Um dia, claudicava da mão esquerda, no outro, da direita. Claudicação que acabava no momento mesmo em que o jóquei lhe dava rédeas. A partir daí, dava por terminada a sua “farsa” e abria um galope vistoso, de animal são como um coco. E a volta à cocheira era sempre em trote entremeado de pinotes, lindamente coreografados. Para meu desgosto, El Boiero terminou seus dias anonimamente em Campos, depois de comprado em um claiming que venceu por vários corpos.

Jumbo Lark, um filho de Tumble Lark, criação do Haras Rosa do Sul, bem ao contrário de seu companheiro de baia, jamais ganhou uma corrida, mas talvez tenha sido o cavalo de minha propriedade que mais colocações conseguiu em 3 anos de campanha, se não me engano, 15 segundos lugares e outros tantos terceiros, alem de incontáveis quartos e quintos. Deve ter faturado em colocações o equivalente a uns três prêmios de primeiro lugar. Seu “divertimento” predileto era, quando em exercício, parar o galope de sopetão, derrubar o jóquei e sair em desabalada carreira, com o rabo em arco, na direção de sua cocheira. Nada de extraordinário, não fosse o fato de que, para alcançar seu intento, Jumbo tinha de dobrar duas esquinas. Depois de um certo tempo, já acostumado com o seu incrível senso de direção, eu nem me preocupava mais com suas estrepolias, mas apenas com verificar se o seu indigitado cavaleiro não tinha se ferido. Sabia que, em poucos minutos, ela já estaria na baia, devorando a sua porção de alfafa.

Vivi momentos de muita tristeza quando Nilsinho Genovezi bateu o martelo dando por consumada a venda de Jumbo Lark em leilão. Saí do tatersal de Cidade Jardim de cabeça baixa, pensando com meus tristes botões: “Onde mais vou arranjar um cavalo tão brincalhão, que sempre me olha de um jeito maroto, como a dizer “ta vendo como eu sei das coisas?” Onde vou arranjar um cavalo que só falta falar?

terça-feira, 3 de junho de 2008

Depoimento:

Abaixo, relato de Marcelo Caetano, leitor do blog, cujo conteúdo bem pode ocupar o espaço reservado à história da semana.


“Sou professor de ginástica em uma academia e gosto de curtir corridas de cavalos, especialmente nas segundas-feiras. Numa das últimas, cheguei ao 9º páreo sem uma só pule premiada.

Decidi então seguir a sugestão do Blog do Senna para aquela prova, justamente a da super quadrifeta. Estava lá: ”páreo complicado, mas quem combinar tais e tais cavalos tem grande chance de fechar a quadrifeta”.

Quando já estava no guichê, percebi que meu dinheiro era insuficiente para combinar os quatro números. Durante o dia, tinha abastecido a moto e esquecera em casa o troco de uma nota de cinqüenta reais. O jeito foi montar um jogo com dois animais para primeiro e segundo, com os outros dois para terceiro e quarto.

Fiz a aposta e fui direto para um jogo de poker entre amigos, de modo que só muito mais tarde, pela Internet, fiquei sabendo que a quadrifeta, com os quatro animais indicados, combinados, rateara mil reais, mas em uma ordem diferente da que eu escolhera.

A primeira coisa que me veio à cabeça foi aquele bordão de um anúncio de motoca...”ela combina com tudo, só não combina com posto de gasolina”. Não combina mesmo, do contrário eu teria curtido, pela primeira vez, uma aposta vencedora de alto rateio.”

Lamento, Marcelo. Mas o blog continua, felizmente, com bom índice de acertos. Haverá outras oportunidades, com certeza.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Zagaia, puro veneno

Inimigos cordiais, Chico e Zecão. Em toda santa reunião, lá estavam eles, armando apostas paralelas. Com total vantagem para o primeiro, cara bem informado, freqüentador de cocheiras.

Até o dia em que Zecão comprou um cavalo só para ter motivo para se misturar aos profissionais, nos matinais. Sua busca não era por barbadas, mas por informações sobre o estado físico de prováveis favoritos. Tinha idéia fixa, quase uma obsessão: dar o troco ao Chico, deixando-o só de cuecas.

Naquela noturna, Zecão estava armado de informações preciosas. Artimanha daqui, artimanha dali, acabou por montar várias paradas muito favoráveis.

Lá pelas tantas, sem saber o que estava acontecendo, Chico foi esvaziando os bolsos até ao ponto de só lhe restarem as roupas do corpo. As mesmas que ele deu como garantia de uma última “parada”. Foi ao banheiro, despiu-se, entregou tudo ao adversário, mas ainda confiante de que a égua Zagaia, com trabalhos assombrosos, lhe devolveria todas as suas perdas.Pobre Chico, não sabia que a égua estava dodói de um casco, prontinha para um completo fracasso.

Ainda fechado no banheiro, nu e com frio, Chico, estarrecido, ouviu o narrador anunciar que o jóquei de Zagaia desistira da corrida na entrada da reta. Pálido e desconsolado, o indigitado se perguntava: o que fazer agora? As tribunas se esvaziaram rapidamente, como sempre acontece nas noturnas, e logo depois já não havia níngüem por ali.

Só muito depois, o nosso “paradista” foi salvo por um guarda noturno que tivera a santa idéia de fazer xixi naquele banheiro. Em casa, madrugada alta, Chico ainda sentia na pele o significado da expressão corriqueira entre jogadores compulsivos - “...e perdi até as calças”. E o pior é que não conseguiu devolver a sova ao Zecão, semanas depois vítima de um fulminante enfarte em plena sociais.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Ligeiro e duro

Gervásio, talvez o mais compulsivo dos apostadores em cavalos que conheço, tem gravado em fogo na memória o instante em que decidiu entrar em um caixa eletrônico do Banrisul, no centro de Porto Alegre, para verificar se ainda tinha crédito para mais um empréstimo vinculado ao seu já combalido holerite de servidor do Estado. Noivo há muitos anos e beirando os 40, é preciso dinheiro para consumar um casamento que já não sabe mais como adiar.

Gervásio fica então sabendo que seu salário ainda comporta uma prestação de 400 reais, só acessível, porém, se o empréstimo for contratado em 72 meses. Já esquecido do casamento, mas de olho nas próximas carreiras, meu amigo não tem dúvida: aperta as teclas “milagrosas” e saca na hora 3 mil reais.

Nem é preciso dizer que a grana vai se esfarelando em picks, trifetas e quadrifetas, uma grande parte em apostas paralelas, “um na frente do outro”, modalidade em que Gervásio se julga especialista. Ao cabo de um fim-de-semana, não sobram sequer os trocados para pagar o cartório.

Meu amigo agora vaga de porta em porta, à procura de quem lhe possa doar azulejos, portas e janelas, cimento e material elétrico para, enfim, poder terminar a casinha que começou a construir há sete anos em um terreno do bairro de Camaquã. A futura esposa nem de longe desconfia que o contra-cheque do noivo terá saldo líquido de apenas 17 reais até 2014.

Gervásio, porém, é ligeiro e duro. Nunca esmorece. No momento, move uma ação contra o banco, exigindo que lhe sejam descontados apenas 30% do salário. Enquanto isso, sonha que acabará por encontrar um jeito de driblar o azar e fechar sózinho um Pick 8, várias vezes acumulado. E, ao invés de uma casinha em Camaquã, oferecer um apartamento de cobertura em Menino de Deus à noiva, pelo visto também dura na queda.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

O caminho das pedras

Partindo do fato de que corrida de cavalos está longe de ser uma ciência exata, tipo loteria ou jogo-do-bicho, e sem qualquer presunção, posso lhes assegurar que aprendi o suficiente, à custa de muito dinheiro, sobre a ingrata tarefa de como apostar nos cavalinhos sem errar demais. Tanto isso é verdade que ousei criar este espaço com a pretensão de facilitar a vida dos apostadores, o que, para minha satisfação, parece que estou conseguindo diante da quantidade de acessos ao blog.

Aproveito então o ensejo para explicar como analiso as carreiras, na expectativa de que isso venha a acrescentar algo mais aos métodos de escolha de cada apostador. Os principais itens que considero em uma análise são: enturmação, retrospecto, jóquei, baliza, ritmo de corrida, raia e, principalmente, tempos obtidos por cada competidor em suas últimas corridas.

Detalhando:

1) Enturmação: por ela, é possível avaliar o potencial de cada competidor em relação aos adversários que vai enfrentar. O difícil é destrinchar os claimings, provas que misturam, quase sempre, animais de idades e enturmações diferentes;

2) Retrospecto: indica ao analista como o animal tem se comportado em carreiras prévias: posição em que chegou, a que distância do primeiro colocado, que tempo corrigido assinalou, com que peso correu, se manteve, perdeu ou manteve seu peso físico, etc.;

3) Jóquei: é fundamental estar a par das qualidades e defeitos do ginete envolvido, uma vez que a maioria dos páreos, especialmente os mais equilibrados, é vencida por animais pilotados por ginetes em melhor posição na respectiva estatística de jóqueis;

4) Baliza: analiso a posição de largada tendo em conta as características do animal. Como regra geral, os ligeiros levam vantagem quando largam por fora dos demais, pois rapidamente podem pegar a ponta e, encetando uma diagonal, livrarem vantagem justamente em uma área decisiva do percurso, a curva final; de modo inverso, os atropeladores se dão melhor em balizas internas, que lhes proporcionam menos riscos de prejuízos;

5) Ritmo de corrida: Animal ligeiro (que pode ser identificado por sua posição na entrada de reta em carreiras anteriores) normalmente leva muita vantagem quando não existem outros velozes para incomodá-lo, e ficam prejudicados quando se envolvem em briga prematura. É comum um cavalo inferior em poderio locomotor, mas na condição de único ligeiro, cruzar o disco na frente de outros superiores só porque poupou energias na primeira parte do percurso para suportar a carga dos atropeladores. (Pena que Cristal, Tarumã e São Vicente não tenham nos respectivos retrospectos a posição de entrada de reta dos inscritos).

6) Raia: A genética é quase sempre infalível: filhos de pais gramáticos correm mais na grama, filhos de pais arenáticos se portam melhor na areia, e filhos de pais lameiros, lameiros serão. Para não falar de pais que produzem filhos sem preferência de raia. Assim, é preciso conhecer um pouco de raça para identificar as preferências de reprodutores e matrizes.

7) Tempo: De todos os fundamentos citados, o mais significativo, a meu ver, são as marcas cronométricas médias de um corredor. Sei, por experiência recorrente, que um animal que corre para 80” nos 1.300 metros da areia, por exemplo, jamais perderá para outro que não baixa de 81”, a não ser por acidente de percurso. Para facilitar a equação para tempos corrigidos, tenho por base que um segundo significam 10 corpos. Assim, um corredor que chegou a 10 corpos para 88¨ terá como marca corrigida 89¨. Já para a raia de grama (sem as famigeradas cercas moveis), o parâmetro é de cinco corpos para cada segundo. (Em páreos no quilômetro, vale demais a direção e a intensidade do vento). Aqui, cabe uma observação: a CC da Gávea teima em não graduar o estado da raia de areia em caso de chuva. Assim, a sigla AP identifica “todas” as raias pesadas. E é sabido que raia encharcada (com água) é muito diferente de raia lamacenta, sem água, para efeito de tempo. Um dia, quem sabe, seja eliminada essa falha, que tanto dificulta o analista.

Nada do exposto acima, amigos, quer dizer ganhos na certa. Todos temos ciência que há muitos fatores não-mensuráveis interferindo no resultado final de um páreo, tais como más largadas, prejuízos no percurso, manqueiras, hemorragias ou joqueadas desastradas, para citar apenas alguns. Mas, de um modo geral, se levados em conta os principais fundamentos de análise aqui detalhados, o carreirista estará mais próximo de acerto do que aquele que só aposta por mera advinhação.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Pules que viram pó

Ao longo de muitos e muitos anos de prado, conheci uma enorme fauna de pés frios, gente com poderes contrários aos de Midas, ou seja, tudo em que toca vira pó. Gustavo Gouveia (Gegê para os íntimos) é o primeiro dessa estranha lista, e com méritos.

O homem sempre foi e é um asa negra para si mesmo ou para aqueles que, por infortúnio, dele se aproximam. Fazem parte de sua antologia pessoal coisas do tipo “cavalo em que apostou cair na partida ou no percurso”, “seu preferido, com a vitória assegurada, mancar a poucos metros do disco”, “perder acumuladas premiadas” ou ser “vítima recorrente de desclassificações”. Não fui testemunha, mas ele mesmo me contou que estava entre os muitos que rasgaram pules depositadas em Boticão de Ouro, aquele craque que, à beira da vitória, destroçou os tendões pouco antes de cruzar o disco.

Consciente dessa aura negativa, Gegê já se valeu de todas as mandigas pseudo neutralizantes: ramo de arruda na orelha, figas e fitinhas baianas, nunca entrar com o pé esquerdo no prado, fazer o sinal da cruz antes de chegar ao guichê e até freqüentar terreiros, em busca da ajuda de orixás. Tudo perfeitamente inútil, o azar é e sempre será a sua segunda pele.

O creme de la creme da incrível coleção de azares do Gegê aconteceu em uma remota noturna de Cidade Jardim. Se vencesse um determinado animal do sétimo páreo, ele fecharia uma acumulada milionária, daquelas que o Jockey costumava estampar como chamariz nos recintos frequentados por apostadores. Dada a largada, o fecho do talão tomou a ponta e assim veio até à antiga pedra de apregoações, com a vitória mais que assegurada. Gustavo já estava de pé, gritando à moda dos argentinos – viejo no mas! Eis, que de repente, um drogado, ou bêbado, sei lá, pula a cerca, atravessa a raia de grama e salta bem à frente do ponteiro, que fica irremediavelmente para trás. Branco como cera de vela, Gegê volta a se sentar, murmurando baixinho, como em ritornelo: “Não é possível. Isso só pode ser coisa do demônio!”

Gustavo é meu amigo dileto, freqüento a sua casa, sou padrinho de um de seus filhos e saímos regularmente para um chopinho na Vila Madalena. Mas, no prado, dou voltas e voltas para não cruzar com ele. Quando acontece, a despeito dos meus esforços, tranço os dedos às costas ou procuro rápido um pedaço de madeira para bater três vezes. É que estou meio escalavrado: por muitas e muitas vezes já fui vítima de seus “eflúvios maléficos”.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Pendurando o chicote

Jorge Bessa Paulielo, um bridão de muita classe que deixou o país em 2001 para encarar o desafio de montar na Inglaterra, está de volta, mas só curtindo férias, e com uma novidade: pendurou o chicote, 979 vitórias depois. “Já não suportava mais brigar com a balança”, me diz, sem conseguir disfarçar os 20 quilos a mais que adquiriu desde que tomou a decisão de parar, em 2004.

Esse foi, por coinscidência, o melhor ano de Paulielo na Inglaterra. “Consegui minha primeira vitória lá e até um segundo lugar em uma prova de Grupo II, corrida em Ascot, com o cavalo Frankie’s Dream”. Também foi o ano em que conseguiu levar a família (a esposa Andresa e os filhos Gabriel e Luisa) para a cidade onde mora, Epsomdowns, e também por ter se tornado cidadão britânico.

Jorginho se orgulha de ter sido um dos que abriram o mercado internacional para colegas brasileiros, como o de Macau, na China. “Em 1992 e 1993, montando lá, consegui o vice-campeonato de jóqueis com 69 e 70 vitórias, além de levantar o Derby local. Logo depois, meu lugar foi ocupado por Manoel Nunes e Eurico Rosa, e bem depois por Fausto Durso e Luis Duarte.”

JB é agora instrutor de crianças em uma escola de dressage, a disciplina eqüestre olímpica que privilegia as habilidades do cavaleiro, muito popular na Europa. Trabalha meio período, pela manhã, e passa as tardes gerenciando o seu espaço no Orkut (www.jorgepaulielo.co.ok) , onde mantém contato praticamente diário com a legião de jóqueis brasileiros que trabalham na Inglaterra, Irlanda e Macau, e com amigos de São Paulo.

Voltar para o Brasil? Pouco provável, afirma. “Primeiro porque minha família já se adaptou ao novo país, depois porque para manter aqui a qualidade de vida que tenho lá, precisaria ganhar pelo menos uns 10 mil reais, algo impensável no nosso turfe de hoje.” Paulielo acrescenta que o governo inglês oferece enorme assistência aos que ganham mil libras (ou menos), que é o seu caso. “Pago apenas 10% do aluguel da casa em que moro, não gasto com remédios e tenho assistência médica e odontológica de graça. Aliás, vivo recusando aumento de salário justamente para não perder esses benefícios”.

De vez em quando, a saudade aumenta. Então, o antídoto é acessar sites brasileiros na Internet, telefonar para os parentes, ou então economizar libras para férias anuais no Brasil. Nas deste ano, deu até para uma esticada de uma semana na Bahia.

Na volta, foi a Cidade Jardim para rever amigos. Ao olhar para a ampla pista de grama, sentiu uma pontada no peito, de pura nostalgia. “Lembrei-me de Mr. Fritz, o melhor cavalo que já montei, especialmente na vitória em que ele, superando muitos problemas físicos, derrotou Much Better. E também de Nick de Mestre, outro estropiado que se superou para bater Jinwaki, um craque do Haras Equilia, vencedor do GP Brasil e do Pelegrini.”

Na saudade de Jorginho, um lugar especial para o pai, o também jóquei J.B. Paulielo, falecido no ano passado. Dentre as razões para que decidisse parar de montar, talvez tenha sido esta a que mais pesou. “Difícil continuar encarando desafios sem o incentivo do homem que me fez seguir a profissão”, conclui.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Cábulas

Uma verdade incontestável: todo jogador, de qualquer espécie, é um ser supersticioso. Conta-se, a propósito, que Dostoiewsky, em vida um jogador compulsivo, não entrava nos cassinos sem antes murmurar fervorosamente preces ortodoxas. Pelo visto, sem muitos resultados, já que chegou ao fim de seus dias completamente endividado. Segundo um de seus biógrafos, o escritor russo precisou escrever às pressas uma de suas obras-prima, O Jogador, para cobrir as despesas do hotel onde se hospedava em Wiesbaden, depois de perder até o último tostão na roleta.

Tenho tido, ao longo dos anos, minha dose de supersticiosos, desde os que não dispensam um prosaico raminho de arruda na orelha, até os que cruzam os dedos às costas a cada largada, passando pelos que se servem da macumba para afastar mau-olhado ou os que se revoltam contra os deuses a cada pule furada.

Anselmo talvez seja o mais cabalístico de toda essa fauna. Já chegou ao extremo de viajar a Salvador com o único propósito de agradecer ao Senhor do Bonfim o fechamento de uma acumulada. Voltou com os joelhos em carne viva, mas feliz e agradecido.

Conheço também alguns que gostam de associar o próprio azar a atitudes de terceiros. Os chamados maniáticos. Mário, por exemplo, desiste de apostar toda vez que a pessoa que o antecede na fila do guichê opta pelo seu palpite. Danilo cancela as pules quando o animal que escolheu defeca no cânter. Francisco, há anos, só veste uma determinada camisa em dia de corrida.

De minha parte, faço força para acreditar que o sobrenatural nada tem a ver com o que acontece na raia. Que os resultados são fruto de variantes perfeitamente racionais. Mas, tal como o espanhol da fábula, não acredito em bruxas, pero que las hay, hay.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Fina estirpe

Craque? Não, longe disso. Apenas um desses raros corredores de coração imenso, cujo instinto está acima de graves impedimentos físicos. Da estirpe de um Boticão de Ouro, por exemplo, que, prestes a vencer um grande prêmio, tentou cruzar o disco com fratura exposta.

Jurado era um desses gigantes das pistas, guardadas as devidas proporções. Correndo dos dois aos sete anos, quando ainda não existiam por aqui as facilidades de enturmação dos claimings, esse filho de Coarazito e Jurée conseguiu o espantoso cartel de 23 vitórias, cinco em Cidade Jardim, 7 no Tarumã e 11 em São Vicente, estas últimas praticamente consecutivas e uma delas em tempo recorde para os 1.100 metros. Detalhe: Jurado tinha os sesamóideos fraturados desde a estréia nas pistas. Uma lesão grave e irrecuperável, já que esses frágeis ossinhos, na base dos boletos dianteiros, é que absorvem todo o impacto de um galão.

Seu treinador na Pista Prateada, José Faurer, sempre teve a paciência necessária para lidar com as necessidades especiais do neto de Coaraze. Talvez por isso ele tenha obtido tantas vitórias. Uma dessas necessidades era que o animal precisava ficar deitado por três ou quatro dias, em repouso, sendo alimentado em cochos improvisados, até que, superadas as dores, ele se sentisse em condições de ficar de pé e praticamente “exigir” do seu cavalariço que o levasse para a beira da raia para gramear e corcovear. Outra era que só entrasse na raia para correr.

A coragem, porém, tem seus limites. As fraturas acabaram falando mais alto, sendo chegada a hora de encaminhar o campeão para uma justa e confortável aposentadoria. Acabou vendido a preço de banana para um sitiante de Itapecerica da Serra para servir de garanhão. Pena que tenha durado muito pouco, apenas alguns meses a nova e boa vida de Jurado. Por obra e graça de uma traiçoeira jararaca. Um triste fim, na verdade, para um corredor de fina estirpe.