Pavão e seu carma
Pavão e seu carma
Um treinador de lá, que já andara pelo Cristal cuidando dos animais do Haras Ferradura, era o nosso contato. Nas muitas conversas com ele e um filho, conhecido por Loquijo, fomos alertados para uma possibilidade de lucro fácil: já que tínhamos muitos dólares, por que não bancar as corridas de sextas e sábados na vizinha Las Piedras? A vantagem era toda da banca, amparada por um rateio fixo de 3 por 1, diziam pai e filho.
A ambição acabou falando mais alto e lá fomos nós para Las Piedras, a um tiro de canhão de Maroñas. Na sexta, entre mortos e feridos, saímos com um lucro razoável de 1.500 dólares, quantia suficiente para reforçar a impressão de que tínhamos descoberto uma mina de verdinhas. No domingo, uma outra história seria escrita, porém: venceram todos os cavalos muito apostados nas bancas, à exceção de um. Como não tínhamos a vantagem de poder descarregar parte das apostas em outros banqueiros pelo fato de sermos gringos e desconhecidos, ficou claro que a mina vertia água e que os riscos eram bem maiores que os previstos. Feito o balanço final, no entanto, estávamos todos apenas um pouco mais pobres, graças ao único favorito que fracassara.
Aliviados, amanhecemos no domingo já com a idéia fixa de desistir da aventura. Aliviados em termos, porque nem bem o dia raiara e já estávamos às voltas com o proprietário do cavalo que não vencera, exigindo o seu dinheiro de volta. Dizia, indignado, que Loquijo induzira um dos seus cavalariços a dopar negativamente o animal. “Le aplicaron una dormidera a mi caballo”, não cansava de repetir. Foram muitas as ameaças de parte a parte, até que um dos nossos proferiu uma, definitiva, que espantou o uruguaio: iríamos dar queixa dele na polícia por ameaça de morte.
Resumo da ópera: passamos a tarde inteira de domingo em uma quase deserta delegacia, tentando convencer o plantonista de que éramos vítimas de uma armação. Por sorte, queixas semelhantes já haviam sido feitas contra o mesmo cidadão e fomos finalmente dispensados. Fosse o policial um pouco mais atento, entretanto, e teríamos sido todos trancafiados. Lá, como aqui, bancar corridas é ilícito penal. Pelo que soube depois, Loquijo passou pelo menos um mês sem sair de casa, esperando a poeira baixar.
Ainda cabreiros com as ameaças, deixamos Montevidéu em direção a Punta Del Leste e Chuí, sempre olhando para trás e para os lados, temendo uma emboscada. Alívio mesmo só quando cruzamos a fronteira e pegamos a estrada para Porto Alegre.
A idéia de importar e exportar cavalos acabou por se perder nas idas e vindas da vida. Uma pena, porque poderíamos estar ainda ganhando dinheiro com um mercado de mão dupla hoje em franca expansão. Las Piedras? Bem, nunca mais estive lá. Pelo que me consta, voltou a ser apenas um apêndice de Maronãs. Os banqueiros a 3 por 1 certamente se mudaram todos para o prado da capital.
*Por razões óbvias, omiti a identidade dos personagens desta história.
Jumbo Lark, um filho de Tumble Lark, criação do Haras Rosa do Sul, bem ao contrário de seu companheiro de baia, jamais ganhou uma corrida, mas talvez tenha sido o cavalo de minha propriedade que mais colocações conseguiu em 3 anos de campanha, se não me engano, 15 segundos lugares e outros tantos terceiros, alem de incontáveis quartos e quintos. Deve ter faturado em colocações o equivalente a uns três prêmios de primeiro lugar. Seu “divertimento” predileto era, quando em exercício, parar o galope de sopetão, derrubar o jóquei e sair em desabalada carreira, com o rabo em arco, na direção de sua cocheira. Nada de extraordinário, não fosse o fato de que, para alcançar seu intento, Jumbo tinha de dobrar duas esquinas. Depois de um certo tempo, já acostumado com o seu incrível senso de direção, eu nem me preocupava mais com suas estrepolias, mas apenas com verificar se o seu indigitado cavaleiro não tinha se ferido. Sabia que, em poucos minutos, ela já estaria na baia, devorando a sua porção de alfafa.
Vivi momentos de muita tristeza quando Nilsinho Genovezi bateu o martelo dando por consumada a venda de Jumbo Lark em leilão. Saí do tatersal de Cidade Jardim de cabeça baixa, pensando com meus tristes botões: “Onde mais vou arranjar um cavalo tão brincalhão, que sempre me olha de um jeito maroto, como a dizer “ta vendo como eu sei das coisas?” Onde vou arranjar um cavalo que só falta falar?
Zagaia, puro veneno
Inimigos cordiais, Chico e Zecão. Em toda santa reunião, lá estavam eles, armando apostas paralelas. Com total vantagem para o primeiro, cara bem informado, freqüentador de cocheiras.
Até o dia em que Zecão comprou um cavalo só para ter motivo para se misturar aos profissionais, nos matinais. Sua busca não era por barbadas, mas por informações sobre o estado físico de prováveis favoritos. Tinha idéia fixa, quase uma obsessão: dar o troco ao Chico, deixando-o só de cuecas.
Naquela noturna, Zecão estava armado de informações preciosas. Artimanha daqui, artimanha dali, acabou por montar várias paradas muito favoráveis.
Lá pelas tantas, sem saber o que estava acontecendo, Chico foi esvaziando os bolsos até ao ponto de só lhe restarem as roupas do corpo. As mesmas que ele deu como garantia de uma última “parada”. Foi ao banheiro, despiu-se, entregou tudo ao adversário, mas ainda confiante de que a égua Zagaia, com trabalhos assombrosos, lhe devolveria todas as suas perdas.Pobre Chico, não sabia que a égua estava dodói de um casco, prontinha para um completo fracasso.
Ainda fechado no banheiro, nu e com frio, Chico, estarrecido, ouviu o narrador anunciar que o jóquei de Zagaia desistira da corrida na entrada da reta. Pálido e desconsolado, o indigitado se perguntava: o que fazer agora? As tribunas se esvaziaram rapidamente, como sempre acontece nas noturnas, e logo depois já não havia níngüem por ali.
Só muito depois, o nosso “paradista” foi salvo por um guarda noturno que tivera a santa idéia de fazer xixi naquele banheiro. Em casa, madrugada alta, Chico ainda sentia na pele o significado da expressão corriqueira entre jogadores compulsivos - “...e perdi até as calças”. E o pior é que não conseguiu devolver a sova ao Zecão, semanas depois vítima de um fulminante enfarte em plena sociais.
Ao longo de muitos e muitos anos de prado, conheci uma enorme fauna de pés frios, gente com poderes contrários aos de Midas, ou seja, tudo em que toca vira pó. Gustavo Gouveia (Gegê para os íntimos) é o primeiro dessa estranha lista, e com méritos.
O homem sempre foi e é um asa negra para si mesmo ou para aqueles que, por infortúnio, dele se aproximam. Fazem parte de sua antologia pessoal coisas do tipo “cavalo em que apostou cair na partida ou no percurso”, “seu preferido, com a vitória assegurada, mancar a poucos metros do disco”, “perder acumuladas premiadas” ou ser “vítima recorrente de desclassificações”. Não fui testemunha, mas ele mesmo me contou que estava entre os muitos que rasgaram pules depositadas em Boticão de Ouro, aquele craque que, à beira da vitória, destroçou os tendões pouco antes de cruzar o disco.
Consciente dessa aura negativa, Gegê já se valeu de todas as mandigas pseudo neutralizantes: ramo de arruda na orelha, figas e fitinhas baianas, nunca entrar com o pé esquerdo no prado, fazer o sinal da cruz antes de chegar ao guichê e até freqüentar terreiros, em busca da ajuda de orixás. Tudo perfeitamente inútil, o azar é e sempre será a sua segunda pele.
O creme de la creme da incrível coleção de azares do Gegê aconteceu em uma remota noturna de Cidade Jardim. Se vencesse um determinado animal do sétimo páreo, ele fecharia uma acumulada milionária, daquelas que o Jockey costumava estampar como chamariz nos recintos frequentados por apostadores. Dada a largada, o fecho do talão tomou a ponta e assim veio até à antiga pedra de apregoações, com a vitória mais que assegurada. Gustavo já estava de pé, gritando à moda dos argentinos – viejo no mas! Eis, que de repente, um drogado, ou bêbado, sei lá, pula a cerca, atravessa a raia de grama e salta bem à frente do ponteiro, que fica irremediavelmente para trás. Branco como cera de vela, Gegê volta a se sentar, murmurando baixinho, como em ritornelo: “Não é possível. Isso só pode ser coisa do demônio!”
Gustavo é meu amigo dileto, freqüento a sua casa, sou padrinho de um de seus filhos e saímos regularmente para um chopinho na Vila Madalena. Mas, no prado, dou voltas e voltas para não cruzar com ele. Quando acontece, a despeito dos meus esforços, tranço os dedos às costas ou procuro rápido um pedaço de madeira para bater três vezes. É que estou meio escalavrado: por muitas e muitas vezes já fui vítima de seus “eflúvios maléficos”.
Cábulas
Uma verdade incontestável: todo jogador, de qualquer espécie, é um ser supersticioso. Conta-se, a propósito, que Dostoiewsky, em vida um jogador compulsivo, não entrava nos cassinos sem antes murmurar fervorosamente preces ortodoxas. Pelo visto, sem muitos resultados, já que chegou ao fim de seus dias completamente endividado. Segundo um de seus biógrafos, o escritor russo precisou escrever às pressas uma de suas obras-prima, O Jogador, para cobrir as despesas do hotel onde se hospedava em Wiesbaden, depois de perder até o último tostão na roleta.
Tenho tido, ao longo dos anos, minha dose de supersticiosos, desde os que não dispensam um prosaico raminho de arruda na orelha, até os que cruzam os dedos às costas a cada largada, passando pelos que se servem da macumba para afastar mau-olhado ou os que se revoltam contra os deuses a cada pule furada.
Anselmo talvez seja o mais cabalístico de toda essa fauna. Já chegou ao extremo de viajar a Salvador com o único propósito de agradecer ao Senhor do Bonfim o fechamento de uma acumulada. Voltou com os joelhos em carne viva, mas feliz e agradecido.
Conheço também alguns que gostam de associar o próprio azar a atitudes de terceiros. Os chamados maniáticos. Mário, por exemplo, desiste de apostar toda vez que a pessoa que o antecede na fila do guichê opta pelo seu palpite. Danilo cancela as pules quando o animal que escolheu defeca no cânter. Francisco, há anos, só veste uma determinada camisa em dia de corrida.
De minha parte, faço força para acreditar que o sobrenatural nada tem a ver com o que acontece na raia. Que os resultados são fruto de variantes perfeitamente racionais. Mas, tal como o espanhol da fábula, não acredito em bruxas, pero que las hay, hay.
Craque? Não, longe disso. Apenas um desses raros corredores de coração imenso, cujo instinto está acima de graves impedimentos físicos. Da estirpe de um Boticão de Ouro, por exemplo, que, prestes a vencer um grande prêmio, tentou cruzar o disco com fratura exposta.
Jurado era um desses gigantes das pistas, guardadas as devidas proporções. Correndo dos dois aos sete anos, quando ainda não existiam por aqui as facilidades de enturmação dos claimings, esse filho de Coarazito e Jurée conseguiu o espantoso cartel de 23 vitórias, cinco em Cidade Jardim, 7 no Tarumã e 11 em São Vicente, estas últimas praticamente consecutivas e uma delas em tempo recorde para os 1.100 metros. Detalhe: Jurado tinha os sesamóideos fraturados desde a estréia nas pistas. Uma lesão grave e irrecuperável, já que esses frágeis ossinhos, na base dos boletos dianteiros, é que absorvem todo o impacto de um galão.
Seu treinador na Pista Prateada, José Faurer, sempre teve a paciência necessária para lidar com as necessidades especiais do neto de Coaraze. Talvez por isso ele tenha obtido tantas vitórias. Uma dessas necessidades era que o animal precisava ficar deitado por três ou quatro dias, em repouso, sendo alimentado em cochos improvisados, até que, superadas as dores, ele se sentisse em condições de ficar de pé e praticamente “exigir” do seu cavalariço que o levasse para a beira da raia para gramear e corcovear. Outra era que só entrasse na raia para correr.
A coragem, porém, tem seus limites. As fraturas acabaram falando mais alto, sendo chegada a hora de encaminhar o campeão para uma justa e confortável aposentadoria. Acabou vendido a preço de banana para um sitiante de Itapecerica da Serra para servir de garanhão. Pena que tenha durado muito pouco, apenas alguns meses a nova e boa vida de Jurado. Por obra e graça de uma traiçoeira jararaca. Um triste fim, na verdade, para um corredor de fina estirpe.
Vadeco tinha tamanho de jóquei, cara de jóquei, trejeitos de jóquei, só não era jóquei. Mas tais semelhanças bem que o ajudaram na dura vida de vendedor de barbadas. Por razões de segurança, o nosso clone preferia aplicar seus golpes em cidades do interior de São Paulo. Se a máscara por acaso caísse, estava seguro de que suas vítimas não iriam passar recibo de idiotas, nem fariam despesas com uma viagem, provavelmente inútil, à capital.
A estratégia de Vadeco era primária e raramente falhava. Seu estrategema: arrumar uma vítima para cada cavalo de uma determinada prova. Logo que saia o programa de Cidade Jardim, ele escolhia um páreo de poucos animais, de preferência de perdedores, mais sujeito a resultados surpreendentes. Já na terça, começava sua via-sacra, cooptando as vítimas previamente escolhidas. E para cada uma delas, a mesma ladainha: Estou puxando esse bicho há seis meses, chegou a hora de ganhar. É uma verdadeira barbada. O senhor joga x e dividimos os lucros.
No sábado, com as sementes devidamente semeadas, era só esperar o momento de uma única colheita, e torcer para que o rateio do vencedor fosse alto. Não raro, surgia pule acima de 20 por 1, garantia de lucros suficientes para dois ou três meses de hibernação.
E assim Vadeco ia levando a vida, sem atropelos e sobressaltos. Mas, como dizem os mais antigos, não há uma sem duas, chegou finalmente a hora do acerto de contas para o baixinho que se passava por jóquei. Com dinheiro suficiente para prolongadas férias, decidiu passá-las na Praia Grande. Tomou um ônibus do Rápido Brasil no Jabaquara, sentou-se em uma poltrona de janela do lado direito e se preparou para um bom cochilo.O cochilo virou sono profundo e ele sequer percebeu quando o ônibus quebrou a mureta de proteção de uma curva da Serra do Mar e se lançou por um precipício de uns 200 metros.
Foi o fim da via-sacra do Vadeco. Neste exato momento, é bem possível que ele esteja vendendo no céu suas barbadas para incautos . Ou seria melhor dizer, no inferno?
Era um tempo em que os bookmakers pululavam por aí, atendendo aos clientes por telefone e ou em chimbicas espalhadas pela cidade. Muitos proprietários se especializavam em toda sorte de artimanhas para pegar no contrapé quem se atrevesse a bancar seus jogos. Danilo, objeto desta historinha, era um dos mais ardilosos, tendo a seu crédito a falência de muitos banqueiros.
Uma de suas tacadas que viraram lenda aconteceu graças justamente ao pior dos seus defensores, um quatro anos perdedor, acostumado a fechar o lote toda vez que corria. Danilo fez vir dos Estados Unidos o então dopping da moda, capaz de melhorar o bicho em mais de um segundo, e cuja mancha ainda não era identificada pela cromatografia. O nome, se bem me lembro, era “cardioby”,
Danilo sabia, já há algum tempo, que seu treinador passava informações de cocheira para alguns banqueiros, por isso armou o que lhe pareceu uma infalível ratoeira: colocou uma dose do estimulante cardíaco em um frasco sem rótulo e uma dose de glicose em outro. Em tirinhas de esparadrapo, escreveu “sim” em uma e “não” em outra. Entregou os vidrinhos ao treinador, devidamente “identificados”, com a recomendação expressa de que iria telefonar umas quatro horas antes do páreo em que seu matungo correria para dizer qual das doses deveria ser aplicada. Se a “sim”, o bichinho iria para “o pau”, se a “não”, a vitória ficaria adiada.
Na hora combinada, Danilo ligou para a cocheira, dizendo que os banqueiros não estavam querendo aceitar seu jogo, de modo que deveria ser aplicada a dose “não”. O golpe ficaria para outra ocasião. Claro que o treinador imediatamente passou a informação para os books, dizendo que poderiam aceitar o jogo do “patrão” sem susto. Nem passou por sua cabeça que a dose “não” era de estimulante cardíaco e que a “sim” era de glicose.
Naquela tarde, o matunguinho agradeceu a “ajuda“ e cruzou o disco na frente, rateando 20 por 1, o suficiente para “tirar do ar” uns dez banqueiros e para compensar o seu preço original em pelo menos cinqüenta vezes. Danilo já foi desta para melhor, mas o treinador ainda vive e certamente já se perguntou milhares de vezes: "Por que fui tão ingênuo?".
João de Castro Godoy gostava especialmente de duas coisas: acentuar no vestir a sua semelhança com o ator Clark Gable e maquiar certas situações de corrida de modo a que cronistas de turfe desavisados as entendessem de maneira errada.
Naquela manhã, ele estava concentrado em “esconder” o verdadeiro potencial de um potro, anotado para estrear alguns dias depois. Convocou Nélio Carrara, então um jóquei modesto que trabalhava animais para suas cocheiras, deu-lhe instruções e foi se sentar na última fileira dos bancos do padoque, como fazia habitualmente há anos.
O potro largou da seta dos 1.400 metros e cobriu o percurso em pouco mais de 89”, com final de menos de 13” para os 200 metros finais. Uma marca assombrosa para a antiga raia de areia de Cidade Jardim. A título de comparação: o normal era os potros perdedores não baixarem de 90”, em corrida.
Tão logo desmontou, Nélio se dirigiu às pressas para o “patrão”, apontando para o Minerva de duas agulhas que tinha nas mãos. “Devo ter marcado errado, seo João, não é possível que um potro que nunca correu faça um tempo desses!”. Foi o bastante para que Godoy praticamente arrancasse o relógio de suas mãos e o atirasse padoque abaixo. “Desaprendeu, Nélio? Claro que nem chegou perto disso”. Desconsolado, o jóquei desceu as escadas e foi ver se ainda restava alguma coisa do seu cronômetro. De longe, alguns cronistas observavam a cena, com a certeza de que seo João estava aprontando alguma, mas sem saber exatamente o quê.
O tempo passou rápido e o potro, Zaluar, de criação do Haras Bela Esperança e de propriedade de Theotônio Piza de Lara, entrou na raia para a sua primeira corrida, montado por João Manoel Amorim. Na pedra, um rateio para além das expectativas de seu treinador. Claro que o filho do inglês Eboo deu um galope de saúde, cravando 88” para a distância.
Na segunda-feira, quando Carrara chegou para a rotina de todas as manhãs, um envelope lhe foi entregue pelo porteiro do vestiário. Dentro, um Minerva novinho em folha, dinheiro equivalente a três meses de salário e um bilhete: ‘Vê se aprende a marcar melhor com este relógio”. Nélio ficou muito satisfeito, claro, mas jamais esqueceu a humilhação por que passara pelas mãos do Clark Gable caboclo. E os cronistas, finalmente, compreenderam o significado da cena do relógio atirado ao chão.
Durante muitos anos, George Dallas, russo de origem e brasileiro por opção, enriqueceu a galeria de treinadores folclóricos de São Vicente. Seu sotaque carregado e seus métodos pouco convencionais de treinamento faziam dele uma figura única. E foi com ele que aprendi algumas lições, esta, por exemplo: são insondáveis os mistérios que cercam um puro-sangue de corridas.
No comecinho dos anos 80, Dallas recebera convite para treinar alguns animais arrendados por Helcio Meca ao Haras Coqueiro Verde. Um deles era Mau-Mau, cria do Haras Guaiuvira, genioso como o pai Georges Raft, e danado de corredor. Dallas inscreveu-o em um clássico em São Vicente, mas não contava com um imprevisto: a ração encomendada, por algum motivo, não chegara de São Paulo. Acostumado a improvisar, o russo não teve dúvidas: foi ao peão do prado, cortou sacos e sacos de capim, e depois à padaria do Abel, para comprar uma grande quantidade de pão amanhecido. Nos cinco dias anteriores à corrida, Mau Mau e seus companheiros de cocheira se submeteram à uma dura dieta de pão, capim e água.
Eu, que acompanhara todas as idas e vindas do russo, fiquei muito animado com a possibilidade de arrumar uma boa grana. Mau-Mau seria grande favorito e, fatalmente, fracassaria. Ledo engano! Dada a largada, o tordilhão tomou a ponta e foi colocando expressiva vantagem sobre os demais, até cruzar o disco com uns 12 corpos à frente do segundo colocado, como se estivesse possuído por uma força sobrenatural. Pouco depois, os alto faltantes anunciavam: “Mau-Mau acaba de bater o recorde dos 1.100 metros”.
Com cara de tacho, tirei do bolso um maço de pules e atirei-as ao vento. Ainda hoje, desconfio que Mau Mau, às escondidas do velho Dallas, fizera um pacto de sangue com os ton-tons macutes do Haiti. Bater recorde a pão e água? Só mesmo com a ajuda de um vodoo.
Esta aconteceu em Belo Horizonte, nos duros tempos da ditadura. Não cito nomes por questões óbvias, mas garanto que a história é verdadeira.
Seis jóqueis combinaram “amolecer” um dos páreos, deixando de fora só o piloto que montava o azarão. Como já acontecera outras vezes, em tantos outros prados, o arranjo fez água e o matungo cruzou o disco na frente.
O pior, porém, ainda estava por vir. Na manhã seguinte, toda a vila hípica comentava o “desastre”, até que a história chegou aos ouvidos do presidente da Comissão de Corridas, justamente um coronel linha dura do exército. O homem não teve dúvida, convocou todo mundo para uma reunião em sua sala do quartel.
Eis o relato de um dos participantes: “Ficamos todos juntos, perfilados, como em ordem unida, enquanto o coronel desfiava um discurso sobre ética, caráter, responsabilidade. Por fim, o homem afirmou que a pena de suspensão seria trocada por um corretivo militar. Fomos, então, ncaminhados para um cubículo e ali confinados por 24 horas, a pão e água. Cara, nunca pensei que um dia iria lamentar não ter sido punido de acordo com o Código de Corridas”.
No escurinho do Bonfim
Os jóqueis João e José Beça Paulielo, gêmeos idênticos, passaram muitas vezes um pelo outro, toda vez que lhes interessava a troca de identidade. Mas, substituírem-se em corrida, com sucesso, foi a glória.
A troca aconteceu no antigo prado do Bonfim. Nas palavras de João Paulielo, a coisa se deu assim: “Osório, um cavalo manhoso de São Vicente, fora inscrito em Campinas justamente numa semana em que o Zé estava suspenso. Assinei a montaria e me preparei para a viagem a Campinas. Antes do embarque, porém, meu irmão apareceu e disse em tom que não admitia réplica. ‘Eu é que vou pra Campinas. Com você, o Osório é capaz de nem largar’.
E assim foi, Zé apareceu no prado como se fosse o irmão João, montou Osório e voltou para casa com a vitória e um bom maço de notas. “No dia seguinte, ele me disse, rindo muito: ‘Sabe aquela clausura onde ficam os jóqueis? É um verdadeiro breu, ninguém enxerga nada. E no padoque nem perceberam que o bicho estava de bridão quando deveria ir de freio’.
A partir daí, João Paulielo passou a acreditar que, no Bonfim, à noite, todos os jóqueis eram pardos.
O fetiche do número 7
Quando São Vicente dava corridas duas vezes por semana, às quartas e sextas-feiras (lá pelo fim dos anos 50, começo dos 60), muitos apostadores de São Paulo e profissionais de Cidade Jardim desciam a serra para ver e jogar nas corridas da pista prateada. Como integrante da turma, eu sempre me apressava a arranjar um lugar bem no fundo do ônibus para ler em sossego o retrospecto da Turfe Vicentino, coisa, aliás, que raramente conseguia.
Em uma certa quarta-feira, sentou ao meu lado o Francisco D’Avila, então treinador do Stud Seabra em Cidade Jardim. Ele tinha um animal inscrito na segunda carreira e precisava sentir “in loco” os progressos do bichinho. Tão logo saimos da Praça Clovis Bevilacqua, o “gringo” começou, em bom portunhol, uma lenga-lenga sobre uma história dos seus tempos de jóquei.
“Sabes, yo montara unas quantas veces uma eguita veloz e floxa. Largaba entre as punteras e desaparecia no directo. Imaginando que ela poderia se dar melhor em distância longa, dice entonces ao su compositor: “anote a Camponesa em dos mil metros, garanto la victória”. Asi fue. Por suerte, saiu um campo com apenas cinco competidoras. Tomei la punta, percorri todo o percurso sem ser molestado e crucei la meta na frente das outras quatro. Volvi ao padoque loquito para ver quales seriam mis ganâncias. Lá estava afixado no placar o número siete da minha montada e na pedra um rateio estratosférico”.
Que coisa! Corriam cinco e apregoaram o número sete? Olhei bem para a cara do Chico, à espera de um sorriso que confirmasse a peta que inventara. O “gringo”, no entanto, permaneceu impassível, nem sequer corou. Resultado, sem ter podido estudar os páreos, eu teria de apostar no escuro. Bela companhia eu arranjara, pensei.
Mas, estava enganado. Antes que nos separássemos ao descer do ônibus, D’Avila, talvez penalizado pelo meu desconforto durante o trajeto, quis me compensar, aconselhando-me a jogar uns "boletitos" em Varadero, sua inscrição no segundo páreo. O cavalo venceu disparado e, por ironia, sob o número 7. Voltei para São Paulo dormindo o sono dos justos e carregando nos bolsos uma nota preta. Valera mais que a pena fingir que acreditara na “façanha” da Camponesa, número sete.
Em 1962, os responsáveis pelo Haras Ipiranga decidiram, por sugestão do Capitão Bela Wodianer, à época o faz-tudo da família Lodi em matéria de criação de PSI, pela importação de Takt, um fundista alemão (por Gundomar), para ocupar a vaga deixada pelo francês Flamboyant de Fresnay. O problema é que o animal estava confinado na então comunista Hungria e de lá não sairia por vias legais.
O que fazer? O mesmo capitão, húngaro de origem e postado no lado austríaco da fronteira, não teve dúvidas: instruiu para que Takt fosse atrelado a uma carroça, como animal de tração, para assim sair dom país desapercebido. Os guardas fronteiriços enguliram a farsa e o valoroso reprodutor pôde, dias depois, chegar ao porto alemão de Hamburgo, de onde ambos, o capitão e o animal, embarcariam para o Brasil.
Por aqui, em apenas três gerações, Takt produziu vários filhos clássicos, sobressaindo-se Moustache (por Elizabeth), ganhador do Grande Prêmio São Paulo de 1967. Por obra do destino, ele e o capitão Bela, companheiros de viagem em um infecto porão de navio, morreram quase que simultaneamente três anos depois.
Alto, esguio, trigueiro, topete eriçado como de um galo-da-serra. Assim era Passarinho, personagem que marcou época nas tribunas populares de Cidade Jardim. Sua origem e ocupação eram um mistério, ainda que alguns jurassem ser ele filho de um ex-milionário, que trabalhava como copeiro em uma mansão do Jardim Europa. Sua compulsão por jogar só em grandes favoritos da reunião e em apregoar aos quatro ventos, depois de virada a “pedra” (totalizador ainda não existia) que o seu escolhido era uma grande barbada faziam dele a figurinha carimbada das populares. Outra de suas manias era correr a toda os cem metros de uma cerca a outra quando os cavalos passavam por ali. Caso o favorito vencesse, Passarinho gritava, punho erguido, repleto de pules: “Eu não disse que era uma barbada?” Quando o favorito perdia, para escapar das vaias, o homem sumia, talvez se escondesse em algum banheiro, ou simplesmente pegasse o ônibus elétrico, cujo percurso de volta ao centro incluía a avenida Europa.
Não sei exatamente quando, provavelmente em meados dos anos 70, Passarinho desapareceu, sem deixar vestígios. Teria se mudado de cidade? Teria morrido? Ou apenas tenha pressentido o triste destino das tribunas, condenadas ao vazio por obra e graça de uma nova classe, a dos agentes credenciados. Mas, na memória de muitos, Passarinho continua vivo. Ele é o símbolo maior de um turfe que jaz enterrado nos limites de arquibancadas silentes.
Fui testemunha ocular (e auricular) de uma cena impagável que já faz parte do folclore das corridas curtas. Aconteceu em um certa cancha reta das muitas que se espalham pelo Rio Grande do Sul.
Jovino, gaúcho de sotaque carregado e quase sempre paramentado a CTG, é um narrador de ternos e finais muito requisitado por aquelas bandas. Daquela vez, tinha sido contratado a peso de ouro para descrever, com seu habitual entusiasmo, o desenrolar de uma final milionária. Quatro “fórmulas um” em 400 metros de pura adrenalina.
Mas, conversa vai, conversa vem, uma birita aqui, outra acolá, e o nosso narrador já estava pra lá de Bagdá no momento da largada. Para ele, o partidor era apenas um borrão e os trilhos linhas imaginárias. De repente, o estrondo das "gateras", liberando os corredores. Jovino só teve tempo de pegar o microfone e improvisar: “Largaram....passaram por aqui....chegaram!” A síntese das sínteses.
Muitos apupos e, no final, a frustração de um cheque não recebido. Ao dar partida em seu velho Passat, Jovino fez dois juramentos, que segue até hoje: nunca mais beber em serviço e passar ao largo daquela cancha e de sua copa.
Só para os não iniciados em retas: gateras são os boxes, trilhos cercam a piso privado de cada competidor, copa é o bar que abastece os retistas e CTG significa Centro de Tradições Gauchas.
Algumas, felizmente, retive na memória, como esta: início da década de trinta do século passado, as coisas estão difíceis para Guaraná, então iniciando-se como treinador em um já desaparecido prado de Petrópolis. Naquele domingo, precisava ganhar uma corrida a qualquer custo para convencer um proprietário a manter seus cavalos na cocheira. Mas, sua única inscrição, um consumado matungo, provavelmente seria dos últimos. O que fazer? A única opção que lhe ocorreu seria substituir o pangaré por um bom ganhador, semelhantes em pelagem e sinais. Só havia nas cocheiras um espécime nessas condições, mesmo assim manchado de branco na testa e em duas patas. No desespero, Guaraná não teve dúvida: muniu-se de um pincel e tinta preta para sapatos e “eliminou” as manchas do substituto.
Como previsto, o cavalo pintado cruzou o disco em primeiro, com vários corpos à frente do segundo colocado. Mas, o castigo sempre vem a cavalo. Quando o vencedor retornava ao padoque, desabou um temporal e a pelagem original reapareceu.
O próprio treinador me contou que nunca soube o que se passou na seqüência. Antevendo o desfecho de seu “crime”, embarafustou por um bambual que servia de cerca viva da raia e nunca mais botou os pés em Petrópolis. Rindo muito, Guaraná arrematava a história, com um jogo de palavras: “Quis ser muito esperto e acabei dando com os burros n’água”.